Pratique a observação!

Você até pode achar que sair por aí observando tudo e todos é pura atividade escolar, coisa para a primeira década da vida. Mas não é. Toda pessoa que tem vontade de transformar o mundo (ou só mexer um pouquinho na sua própria vida) precisa, antes de qualquer coisa, de atenção e habilidade para observar tudo que está ao seu redor. Não dá para interagir com a natureza sem antes observá-la – e isso passa pela contemplação, apreciação, análise e também pelos sentidos mais “ociosos” nessa época de nossa história que é tão visual… Cheirar, tocar, saborear, ouvir a natureza. Ah, que delícia! Esse é um dos princípios de que mais gosto na Permacultura. Observar e interagir. Você costuma fazer isso? Faça um teste rápido: você reparou que alguma árvore perto da sua casa está repleta de flores? Notou que o som dos passarinhos está mais presente no ar? Já sentiu na pele aquele vento que antecede a chuva no meio da tarde? Parou por alguns instantes para localizar a lua no céu? Sentiu gratidão por tudo isso? Pois é, sabe aquele papo de gente da terra, que sabe quando vai chover, quando é hora de plantar e que consegue “ler” a natureza a partir do comportamento dos animais? Será que perdemos todo esse conhecimento ao longo de umas poucas gerações? Como isso aconteceu? Simplesmente deixamos de observar a natureza… Os grandes prédios encurtaram nosso horizonte; os carros e a velocidade conquistada pela parafernália tecnológica (eletrodomésticos, telefonia, computadores etc.) tornaram confusa nossa noção de tempo e espaço. O verde ficou mais longe e mais escasso, substituído pelo cinza do concreto e do asfalto, sempre tão monótonos… Máquinas não têm oscilação de estações, não florescem nem produzem sementes… Não precisamos observá-las… Perdemos uma parte importante da nossa habilidade e curiosidade de admirar a beleza e os mistérios da natureza. Enfiados dia após dia em escritórios com ar-condicionado, carros com ar-condicionado, casas com ar-condicionado, perdemos a elasticidade do nosso corpo para suportar diferenças de temperatura (suar mais para resfriar o corpo, arrepiar os pelos para bloquear o frio). Estamos quase sempre vivendo mediados por alguma interface tecnológica que nos separa da natureza: um veículo, um elevador, uma jaqueta impermeável, óculos escuros, telas de aparelhos eletrônicos. Onde está a natureza no meio de tudo isso? Quando trabalhei com educação ambiental, cansei de ver crianças com medo de formiga, de pisar na grama, de sentar na terra, de “sujar” as mãos para plantar uma semente na mata. Natureza é rude, é suja, é nojenta, enfim, é algo extremamente distante e estranho a nós. Que triste… Lembro-me de quando eu ainda morava em São Paulo e me surpreendia admirando o ipê-rosa que teimava em reinar absoluto na rua Cardeal Arcoverde. Era lindo ver as folhas formando um tapete na calçada, a copa exuberante que deixava o céu mais bonito e o coração mais alegre. Quando simplesmente nos abrimos para a natureza, aceitando-a, sentimos que sua força está em todos os lugares, ainda que a paisagem pareça urbana demais, construída demais, modificada demais. Ela está lá também. Basta ob-se-rvar. E observar é o primeiro passo para entendermos o que acontece ao nosso redor e o que podemos fazer para construir ambientes mais agradáveis, saudáveis e seguros. Terremotos ocorrem na natureza, mas viram desastres quando afetam cidades… Chuvas ocorrem, e podem tanto fertilizar a terra quanto provocar enchentes. A interação que mantemos com a natureza é resultado do olhar que dispensamos a ela. Se nossa casa é alvo de ventos fortes, e notamos isso, podemos plantar um bom quebra-vento para nos proteger. Se, da mesma forma, as chuvas são intensas e constantes, podemos manter o solo mais permeável para que ela infiltre e recarregue os lençóis freáticos e, ainda, aproveitar a água nas atividades domésticas, armazenando-a e conquistando autonomia no uso do recurso. É tudo uma questão de – de novo – observar e interagir de forma adequada, aproveitando o que ela nos oferece e transformando o que seriam problemas em soluções simples, que tornam nossa vida mais gostosa. Vamos nessa? Foto: O céu muda a cada instante. Da varanda da minha casa, com um pouco de atenção e humildade, é possível sentir na pele a direção do vento e dizer se a chuva está se aproximando ou se distanciando… É uma delícia ficar brincando de adivinhar os próximos passos da natureza… A pressão atmosférica muda, a luz do sol na terra se altera, os cheiros, o movimento dos bichos, tudo está em constante movimento. E nossa participação nesses ciclos só depende de nós…

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